6 de Copas

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Bom dia! :-)

Não sei se vocês estão percebendo, mas este ciclo de Diabo está bem light. Ontem, o 4 de Ouros, hoje, o 6 de Copas. Por enquanto está soando algo como o potencial energético do Arcano 15 voltado para realizações materiais de uma forma segura e estável, e seu aspecto voltado para os prazeres possibilitando momentos de leveza, divertimento e alegrias.

Meu 6 de Copas chegou até adiantado! Veio ontem no meio da tarde, com um maravilhoso encontro com amigos queridos na praia. Nem eu sabia que estava precisando tanto de momentos assim! A conversa leve, com gente que eu gosto tanto, sem o menor compromisso de "performance intelectual", muito pelo contrário, com todo o direito às bobeiras que mais nos fazem rir.

Sempre que pensamos em 6 de Copas, pensamos nos tempos da infância. Por isso que a maior parte das cartas que representam esse Arcano mostram crianças brincando. Temos aqui um pouco da inocência, da pureza, da leveza, da alegria... Temos aqui os pequenos e doces prazeres, coisas simples do dia-a-dia. Também temos provas de amizade, fé, confiança e amorosidade.

Hoje é dia de Júpiter. Quinta-feira do grande benéfico! E penso que o maior recado que o tarot nos dá é aquele que fala sobre o poder da criança interior. O quanto ela - a criança que mora em nós - quando devidamente cuidada, pode resolver problemas tão profundos que nem podemos imaginar! Não tenho dúvida quanto a isso! E para quem não conhece muito bem o assunto se inteirar um pouquinho, deixo com vocês um vídeo que explica o que é a criança interior e como podemos curá-la através da técnica do Ho'oponopono, sobre a qual tanto falamos aqui, e que envolve bem mais do que o mantra "Sinto muito, me perdoa, eu te amo, sou grata". Assistam com atenção e vocês vão descobrir algumas coisas bem interessantes... Recomendo que assistam também outros vídeos do Dr. Len, o responsável por divulgar esta técnica de cura originária dos kahunas, xamãs havaianos.



Ótima quinta-feira para todos nós! :-)

A imagem veio daqui

9 comentários:

Larissa disse...

Ontem fui na exposição Le Parc Lumiére na Casa Daros, em Botafogo. Uma exposição de brinquedos de luz na mais completa penumbra. Minha dica para quem está no Rio e quer entrar em contato com sua criança interior... E não sofre de epilepsia ou medo de escuro :) beijo beijo a todo o Via

Clara disse...

Bom dia Via!!!
Ontem estava vendo Surfistas no canal OFF, e "VIAJEI"...
Passei a Infância olhando para o Mar e vendo aquela reportagem me senti retornando aos Velhos Tempos de uma forma Muito legal.
Tive sensações tão Incríveis que senti até o Cheiro de Mar.
Acreditem.
Grata.

Aliks disse...

\0/ ... sincronicidades ... resgatando a criança interior !!!
Bju

Fernando Augusto disse...

Para viver eu escolho a inocência, o mistério e o encantamento!

O arcano do 6 de copas representa o resgate de uma inocência perdida, é a lembrança do paraíso e o desejo de ser aquele ente poderoso, alegre e pleno que já fomos um dia.

Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças de modo algum entrareis no reino dos céus – Jesus.

Comentário em http://viatarot.blogspot.com.br/2013/11/6-de-copas.html

Os políticos certamente garantiram sua vaga no inferno, junto com os grandes empresários, banqueiros e os grandes hierarcas das instituições religiosas. Quem os condena é a palavra do Mestre.

Todos nós já fomos crianças um dia e o mundo nos parecia maravilhoso. Mesmo as crianças mais miseráveis são felizes brincando em meio à lama, são como o lótus, a pureza que brota do lôdo, enquanto os adultos mesmo cercados pelo fausto se sentem miseráveis com seus pactos diabólicos em busca sempre da droga suprema dos falsos poderes deste mundo.

Inegavelmente o mundo é uma ilusão e a nossa percepção não vê as coisas como são e sim de acordo com uma formatação sócio-cultural. Não vemos o mundo tal qual ele é e sim da forma que nos disseram que ele é. Para vermos o mundo real precisamos adquirir a percepção pura, isenta de condicionamentos, uma percepção inocente e silenciosa, que se encanta com a magia de todo o momento, a percepção da criança.

Não precisamos ter para ser. A balança do ser e do ter precisa estar equilibrada, assim como a balança entre a inocência e a experiência que resulta em consciência.

Consciência é a inocência enriquecida pela experiência.

Inconsciência é inocência perdida pelo maquiavelismo.

A primeira é uma sabedoria da luz, a segunda um conhecimento ilusório.

Alguns poderão dizer que a inocência é uma ilusão paradisíaca. Mas tudo no mundo é uma ilusão, estar consciente da ilusão é poder.

Mas que tipo de poder é este?

É o poder da escolha consciente, é o poder que os xamãs chamam de “ter de acreditar”. Sendo tudo ilusão eu posso conscientemente escolher a ilusão que quero viver para enriquecer o meu ser. Ilusão aqui é usado no sentido da palavra hindu maya. Não é engano, antes é natureza moldável do mundo a partir da percepção. No centro da idéia de ter de acreditar está a morte como conselheira, está a impermanência, está a natureza passageira, mutável e em contínuo fluxo dos fenômenos. Assim deixo esta passagem do livro Porta para o Infinito:

Fernando Augusto disse...

Um guerreiro tem de ser fluido e mudar em harmonia com o mundo que o rodeia, seja o mundo da razão ou o mundo da vontade. O aspecto mais perigoso dessa mudança se manifesta cada vez que o guerreiro descobre que o mundo não é uma coisa nem outra. Disseram-me que o único meio de vencer nessa mudança é proceder em seus atos como se a gente acreditasse. Em outras palavras, o segredo de um guerreiro é que ele acredita sem acreditar. Mas, obviamente, um guerreiro não pode simplesmente dizer que acredita e deixar as coisas por isso mesmo. Isso seria fácil demais. Simplesmente acreditar o desobrigaria de examinar sua situação. Um guerreiro, sempre que tem de se envolver em acreditar, faz isso conscientemente, como expressão de sua encolha íntima. Um guerreiro não acredita, simplesmente: um guerreiro tem de acreditar.

Ele me ficou fitando um pouco enquanto eu escrevia no caderno. Fiquei calado. Não podia dizer que entendesse a diferença, mas não queria discutir nem fazer perguntas. Eu queria pensar no que ele dissera, mas o meu espírito divagava, enquanto eu olhava em volta. Na ma atrás de nós havia uma longa fila de carros e ônibus, buzinando. Na borda do jardim, a uns 20 metros, talvez, bem na direção do banco em que estávamos sentados, havia um grupo de umas sete pessoas, inclusive três guardas de farda cinza, debruçados sobre um homem deitado imóvel na grama. Ele parecia estar bêbado, ou talvez gravemente doente.

Virei-me para Dom Juan. Também ele olhava para o homem.

Disse-lhe que, por algum motivo, eu não conseguia esclarecer sozinho o que ele acabava de me dizer.

— Não quero mais fazer perguntas — disse eu. — Mas, se não lhe pedir para explicar, não compreendo. Não fazer perguntas é muito anormal para mim.

— Por favor, seja normal — disse ele, fazendo-se de sério.

Eu disse que não compreendia qual a diferença entre acreditar e ter de acreditar. Para mim, eram a mesma coisa. Conceber que as frases eram diferentes era uma minúcia.

— Lembra-se da história que você me contou uma vez a respeito de uma amiga sua e os gatos dela? — perguntou, com displicência.

Ele olhou para o céu e encostou-se no banco, esticando as pernas. Pôs as mãos atrás da cabeça e contraiu os músculos do corpo todo, Como acontece sempre, seus ossos estalaram alto.

Ele se referia a uma história que eu lhe contara um dia sobre uma amiga minha que encontrou dois gatinhos quase mortos dentro de uma secadeira, numa lavanderia automática. Ela os reanimou, e, com muitos cuidados e ótima alimentação, criou-os até eles virarem dois gatos gigantescos, um preto e um avermelhado.

Dois anos depois ela vendeu a casa. Como não podia levar os gatos e não conseguisse encontrar outro lar para eles, nas circunstâncias só o que podia fazer era levá-los para uma clínica veterinária e sacrificá-los.

Ajudei-a a levá-los. Os gatos nunca tinham entrado num carro; ela procurou acalmá-los, mas eles a arranharam e morderam, especialmente o avermelhado, que ela chamava de Max. Quando afinal chegamos à clínica, ela levou primeiro o gato preto; pegando-o no colo, e sem dizer uma palavra, ela saltou do carro. O gato brincou com ela, dando-lhe patadas delicadas enquanto ela abria a porta de vidro para entrar na clínica.

Olhei para Max: ele estava sentado no banco de trás. O movimento de minha cabeça deve tê-lo assustado, pois ele pulou para debaixo do assento do motorista. Fiz o assento deslizar para trás. Não queria pôr a mão embaixo, de medo que o gato me mordesse ou arranhasse minha mão, O gato estava deitado dentro de uma depressão no fundo do carro. Parecia muito agitado, sua respiração, ofegante. Ele olhou para mim; nossos olhos se encontraram e fui dominado por uma sensação de opressão. Alguma coisa se apoderou de meu corpo, uma forma de apreensão, desespero, ou talvez constrangimento por tomar parte no que estava ocorrendo.

Fernando Augusto disse...

Senti uma necessidade de explicar a Max que a decisão fora de minha amiga, e que eu só a estava ajudando. O gato ficou me olhando como se entendesse minhas palavras.

Olhei para ver se ela já vinha de volta. Eu a via através da porta de vidro. Ela estava falando com a recepcionista. Meu corpo teve um choque estranho e automaticamente abri a porta do carro.

"Corra, Max, corra!", disse eu ao gato.

Ele saltou para fora do carro e deu uma corrida para o outro lado da rua, o corpo rente ao chão, como um autêntico felino. Aquele lado da rua estava vazio; não havia carros parados e eu via Max correndo, junto à sarjeta. Ele chegou à esquina de uma grande avenida e depois se meteu por um cano de esgoto.

Minha amiga voltou. Contei-lhe que Max tinha fugido, Ela entrou no carro e nós fomos embora sem dizer uma palavra.

Nos meses que se seguiram, o incidente passou a ser um símbolo para mim. Imaginei, ou talvez tivesse visto, um brilho estranhe nos olhos de Max quando olhou para mim antes de saltar do carro. E acreditei que por um momento aquele bichinho de estimação, castrado e obeso e inútil, tornou-se um gato.

Eu disse a Dom Juan que estava convencido de que, quando Max correu para o outro lado da rua e mergulhou no esgoto, o seu "espírito de gato" estava impecável, e que talvez em nenhum outro momento de sua vida o seu "gatismo" fora tão evidente. A impressão que o incidente deixou em mim foi inesquecível.

Contei a historiada todos os meus amigos; depois de contá-la e recontá-la, minha identificação com o gato tornou-se muito agradável.

Achei que eu era como Max, mimado demais, domesticado em muitos sentidos, e no entanto não podia deixar de pensar que havia sempre a possibilidade de um momento em que o espírito do homem poderia apossar-se de todo o meu ser, assim como o espírito de "gatismo" se apossou do corpo flácido e inútil de Max.

Dom Juan gostara da história e tecera alguns comentários sobre ela. Dissera que não era assim tão difícil deixar que o espírito do homem fluísse e se apossasse; mas que mantê-lo era coisa que somente um guerreiro poderia fazer.

— O que é que tem a história dos gatos? — perguntei.

— Você me disse que acreditava que se está arriscando, como Max — disse ele.

— Acredito nisso, sim.

— O que estive tentando dizer-lhe é que, como guerreiro, você não pode simplesmente acreditar nisso e deixar a coisa correr. Com Max, ter de acreditar significa que você aceita o fato de que a fuga dele pode ter sido uma explosão inútil. Ele pode ter saltado para o esgoto e morrido instantaneamente. Pode ter-se afogado ou morrido de fome, ou pode ter sido devorado pelos ratos. Um guerreiro considera todas essas possibilidades e depois resolve acreditar de acordo com suas predileções íntimas. Como guerreiro, você tem de acreditar que Max conseguiu salvar-se, que ele não apenas fugiu, mas que manteve seu poder. Você tem de acreditar nisso. Digamos que sem essa crença você nada tem.

Fernando Augusto disse...

A distinção tornou-se muito clara. Achei que eu realmente tinha preferido acreditar que Max sobrevivera, sabendo que ele estava levando a desvantagem de uma vida inteira de mimos e bons tratos.

— Acreditar é fácil — continuou Dom Juan. — Ter de acreditar é outra coisa. Neste caso, por exemplo, o poder lhe deu uma lição esplêndida, mas você preferiu só usar a metade dela. Se você tem de acreditar, porém, tem de utilizar o fato todo.

— Entendo o que quer dizer — disse eu.

Meu espírito estava num estado de lucidez e achei que estava entendendo os conceitos dele sem esforço algum.

— Acho que você ainda não entendeu ~ disse, quase cochichando.

Ele me ficou fitando. Sustentei seu olhar por um momento.

— E o outro gato? — perguntou ele.

— Hem? O outro gato? — repeti, involuntariamente.

Eu esquecera a respeito. O meu símbolo girava em torno de Max. O outro gato não me interessava.

— Mas interessa, sim! — exclamou Dom Juan, quando exprimi meus pensamentos. — Tem de acreditar significa que você também tem de explicar o outro gato. O que saiu lambendo as mãos que o levavam a sua execução. Aquele foi o gato que se dirigiu para a morte, confiante, cheio de seus conceitos de gato. Você acha que se parece com Max, de modo que já se esqueceu do outro gato. Nem sabe o nome dele. Ter de acreditar significa que você tem de considerar tudo, e antes de resolver que você se parece com Max, você deve considerar que pode parecer com o outro gato; em vez de fugir para salvar a vida e se arriscar, pode estar caminhando feliz para seu destino, cheio de seus conceitos.

Havia em suas palavras uma tristeza curiosa, ou talvez a tristeza fosse minha. Ficamos calados muito tempo. Nunca me passara pela cabeça que eu pudesse ser como o outro gato. A idéia me era muito angustiosa.

Uma pequena agitação e o ruído abafado de vozes de repente me despertaram de minhas conjeturas mentais. Os guardas estavam dispersando as pessoas que se haviam agrupado em volta do homem deitado na grama, Alguém apoiara a cabeça do homem num casaco enrolado. Ele estava deitado paralelamente à rua, de frente para o Leste. De onde eu estava, eu quase podia ver que seus olhos estavam abertos.

Dom Juan suspirou.

— Que tarde linda — disse ele, olhando para o céu.

— Não gosto da Cidade do México.

— Por que não?

— Detesto o smog.

Ele sacudiu a cabeça, ritmadamente, como se concordasse comigo.

— Prefiro estar com você no deserto, ou nas. montanhas — acrescentei.

— Se eu fosse você, nunca diria isso.

— Eu não queria dizer nada de mau, Dom Juan.

— Nós dois sabemos disso. Mas não é o que você quer dizer que importa. Um guerreiro, ou qualquer homem, aliás, não pode desejar estar em outro lugar; um guerreiro porque vive do desafio, um homem comum porque não sabe onde sua morte vai encontrá-lo. Olhe aquele homem ali deitado na grama. O que você acha que há com ele?

— Ou está bêbado ou doente — disse eu.

— Está morrendo! — O tom de Dom Juan tinha a mais completa convicção. — Quando nos sentamos aqui, avistei a morte rondando junto dele. Foi por isso que eu lhe disse para não se levantar; chuva ou sol, você não pode se levantar desse banco até o fim. É esse o augúrio que estivemos esperando. Já estamos no fim da tarde.

Fernando Augusto disse...

No momento, o sol vai se pôr. É a sua hora de poder. Olhe! A vista daquele homem é só para nós.

Ele mostrou que, de onde estávamos sentados, tínhamos uma visão total do homem. Um grupo de espectadores curiosos estava reunido num semicírculo do outro lado, defronte de nós.

A visão do homem deitado na grama começou a me perturbar. Ele era magro e moreno, ainda jovem. Tinha cabelos escuros, curtos « crespos. A camisa estava desabotoada e o peito descoberto. Vestia um suéter laranja, com buracos nos cotovelos, e calças cinzas, velhas e surradas. Seus sapatos, de alguma cor desbotada e indefinida, estavam desamarrados. Ele estava rígido. Eu não podia dizer se ele respirava ou não. Fiquei pensando se ele estaria morrendo, conforme dizia Dom Juan. Ou estaria Dom Juan apenas aproveitando-se do caso para um exemplo? Minhas experiências passadas com ele davam-me a certeza de que, de algum modo, ele estava fazendo com que tudo se encaixasse em algum de seus planos misteriosos.

Depois de um silêncio prolongado, virei-me para ele. Seus olhos estavam fechados. Ele começou a falar sem abri-los.

— Aquele homem está prestes a morrer — disse ele. — Você não acredita, não é?

Abriu os olhos e me fitou por um segundo. Seu olhar era tão penetrante que fiquei estonteado.

— Não acredito, não — respondi.

Eu achava realmente que era tudo muito fácil. Nós nos tínhamos ido sentar no jardim e bem ali, como se tudo estivesse sendo encenado, estava um homem morrendo.

— O mundo se adapta a nós — disse Dom Juan, depois de ouvir minhas dúvidas. — Isto não é uma cena arrumada. Ê um augúrio, um ato de poder. O mundo sustentado pela razão faz de tudo isso um acontecimento que podemos observar por um momento, a caminho de coisas mais importantes. O que podemos dizer a respeito 6 que um homem está deitado na grama do jardim, talvez bêbado. O mundo sustentado pela vontade toma isso um ato de poder, que podemos ver. Podemos ver a morte rodopiando em volta do homem, enfiando suas garras cada vez mais profundamente nas fibras luminosas dele. Podemos ver os fios luminosos perdendo sua tensão e desaparecendo um a um. São essas as duas possibilidades que se apresentam a nós seres luminosos. Você está em algum ponto no meio, ainda querendo ter tudo sob a rubrica da razão. E, no entanto, como pode desprezar o fato de que seu poder pessoal convocou um augúrio? Viemos a este jardim, depois que você me encontrou onde eu o esperava. Você me encontrou apenas andando ate mim, sem pensar, nem planejar, nem propositadamente usar a sua razão. Depois que nos sentamos aqui para esperar um augúrio, notamos aquele homem, cada um de nós reparou nele a seu modo, você com sua razão, eu com minha vontade. Aquele homem agonizante é um dos centímetros cúbicos de sorte que o poder sempre apresenta ao guerreiro. A arte é estar perenemente fluido para poder colhê-lo. Eu o colhi, mas e você?

Fernando Augusto disse...

Não pude responder. Senti um abismo imenso dentro de mim e, por um momento, de algum modo tive noção dos dois mundos de que ele estava falando.

— Que augúrio raro é este! — continuou ele. — E tudo para você. O poder lhe está mostrando que a morte é o ingrediente indispensável em ter de acreditar. Sem a consciência da morte, tudo ê comum, trivial Ê só porque a morte nos está rondando que o mundo é um mistério insondável. O poder já lhe mostrou isso. Só o que eu fiz, eu mesmo, é compor os detalhes do augúrio, de modo que a direção lhe ficasse clara; mas ao compor os detalhes, também lhe mostrei que tudo o que lhe disse hoje é o que eu tenho de acreditar, eu mesmo, porque é essa a preferência de meu espírito.

Nós nos olhamos nos olhos um momento.

— Lembro-me de um poema que você costumava ler para mim — disse ele, olhando de lado.

— Sobre um homem que jurou que havia de morrer em Paris. Como é mesmo?

O poema era Pedra Negra Sobre Pedra Branca, de César Vallejo. Eu já lera e recitara as duas primeiras estrofes inúmeras vezes para Dom Juan, a seu pedido.

Morrerei em Paris, quando chover,
num dia de que já me recordo.
Morrerei em Paris — e não fujo —
talvez no outono, numa quinta-feira, como hoje.
Será uma quinta~feira, porque hoje,
a quinta-feira em que escrevo essas linhas,
meus ossos sentem a volta,
e nunca como hoje, em todo o meu caminho,
eu me vi tão só.

O poema encerrava uma melancolia indescritível, para mim. Dom Juan murmurou que tínhamos de acreditar que o homem moribundo tivera - suficiente poder pessoal para permitir-lhe escolher as ruas da Cidade do México como o lugar de sua morte.

— Estamos de volta à história dos dois gatos — disse ele. — Temos de acreditar que Max teve noção do que o estava perseguindo e, como aquele homem ali, teve o poder suficiente para pelo menos escolher o lugar do seu fim. Mas aí temos o outro gato, assim como há outros homens cuja morte os cercará quando estiverem sós, sem consciência, olhando para as paredes e teto de um quarto feio e despido. Aquele homem, por outro lado, está morrendo onde sempre viveu, nas ruas. Três policiais são a sua guarda de honra. E quando ele se for apagando, seus olhos terão um último vislumbre das luzes nas lojas do outro lado da rua, os carros, as árvores, as multidões de pessoas a sua volta, e seus ouvidos se encherão pela ultima vez com os ruídos do tráfego e as vozes dos homens e mulheres que passam. Assim, você vê, sem uma consciência da presença de nossa morte não há poder, nem mistério.

Fiquei olhando para o homem muito tempo. Ele estava imóvel. Talvez estivesse morto. Mas minha descrença não importava mais. Dom Juan tinha razão. Ter de acreditar que o mundo é misterioso e insondável era a expressão da preferência íntima do guerreiro. Sem isso ele nada tinha.


Porta para o Infinito, de Carlos Castaneda